Do Vazio Urbano à Plenitude Rural: A Cultura como Laço e Pertencimento em Eça de Queirós Lei Chon In

Ele possui formação na área do ensino de português.

Participou na edição de diversas publicações e materiais didáticos, nomeadamente: Panorama do Desenvolvimento Sustentável dos Países de Língua Portuguesa, Panorama da Cultura Alimentar de Portugal, Livro Branco sobre a Cooperação Científica e Tecnológica entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

Do Vazio Urbano à Plenitude Rural: A Cultura como Laço e Pertencimento em Eça de Queirós

 

A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, é uma obra que, à primeira vista, apresenta o contraste entre a vida urbana e a vida rural. No entanto, a sua força literária vai muito além dessa oposição. Lida no contexto do tema “A cultura entra na comunidade”, esta obra permite-nos refletir sobre uma questão essencial: onde vive verdadeiramente a cultura? Apenas nos grandes centros urbanos, nos livros, nos museus e nas instituições? Ou também nos gestos quotidianos, nas relações de vizinhança, na comida, na terra, na memória e na vida simples de uma comunidade?

O protagonista, Jacinto, vive inicialmente em Paris, símbolo máximo da civilização moderna. Rodeado de livros, máquinas, aparelhos, conforto material e novidades tecnológicas, parece ter tudo para ser feliz. Contudo, quanto mais abundante é a sua vida material, maior parece ser o seu cansaço interior. A cidade, que deveria representar progresso e felicidade, torna-se para ele um espaço de saturação, isolamento e vazio. É precisamente aqui que encontro uma das maiores qualidades do livro: Eça de Queirós não critica a modernidade de forma direta ou simplista; antes mostra, com ironia e inteligência, como o excesso de conforto e de civilização pode afastar o ser humano daquilo que é essencial.

Um dos aspetos que mais aprecio nesta obra é a sua atualidade. Embora tenha sido escrita há mais de um século, continua a dialogar com o nosso tempo. Hoje, também vivemos rodeados de tecnologia, informação rápida e meios de comunicação constantes. No entanto, isso não significa necessariamente que vivamos melhor ou que estejamos mais próximos uns dos outros. Pelo contrário, muitas vezes a vida urbana moderna cria distância, pressa e ansiedade. A experiência de Jacinto em Paris funciona, por isso, como um espelho da condição contemporânea: temos mais instrumentos, mas nem sempre mais sentido; temos mais comodidade, mas nem sempre mais comunidade.

Quando Jacinto regressa à sua propriedade em Tormes, nas serras portuguesas, a narrativa muda de tom. O espaço rural não é apresentado apenas como paisagem bonita ou refúgio romântico. É antes um lugar onde o protagonista reencontra a simplicidade, a natureza, a alimentação ligada à terra, o contacto humano e a pertença a uma comunidade concreta. Em Tormes, Jacinto deixa de ser apenas um indivíduo isolado no meio do luxo urbano e passa a relacionar-se com pessoas, lugares e responsabilidades. A serra torna-se, assim, um espaço de reconstrução interior.

Esta dimensão aproxima muito o livro do tema “A cultura entra na comunidade”. A cultura não deve ser entendida apenas como algo distante, reservado a especialistas ou conservado em espaços formais. Ela vive também nas práticas do quotidiano: na forma como se acolhe alguém, na maneira como se partilha uma refeição, nas histórias de uma terra, na relação com os vizinhos e na memória coletiva de um lugar. Em A Cidade e as Serras, a cultura aparece precisamente como experiência vivida. Não é uma decoração exterior à vida; é uma força que organiza a relação entre as pessoas, a natureza e a comunidade.

Outro grande mérito da obra está no estilo de Eça de Queirós. A escrita combina ironia, humor, crítica social e momentos de grande beleza descritiva. As páginas dedicadas à vida parisiense são marcadas por uma observação satírica muito fina: os aparelhos, os hábitos sofisticados e a obsessão pelo progresso surgem muitas vezes de forma quase ridícula. Já a descrição das serras, dos alimentos, dos ritmos da natureza e das relações humanas ganha uma tonalidade mais calorosa e poética. Esta mudança de estilo permite ao leitor sentir, e não apenas compreender, a diferença entre os dois mundos.

O que mais valorizo, porém, é o equilíbrio da obra. Eça de Queirós não defende uma rejeição total da cidade, nem apresenta o campo como solução perfeita para todos os problemas. A sua crítica é mais subtil. O que a obra parece sugerir é que a modernidade, quando se separa da natureza, da memória e da comunidade, pode tornar-se vazia. Por outro lado, a vida simples, quando está ligada à dignidade humana, ao trabalho, à solidariedade e à pertença, pode oferecer uma forma mais autêntica de felicidade.

Para os leitores de Macau, esta obra oferece também um espaço de reflexão particularmente pertinente. Macau é uma cidade altamente urbanizada, densamente povoada e marcada por um ritmo de vida acelerado. Ao mesmo tempo, é também um lugar de grande riqueza cultural, onde convivem memórias comunitárias, bairros históricos, festas tradicionais, edifícios religiosos, gastronomia local e marcas profundas do encontro entre as culturas chinesa e portuguesa. Por isso, Macau pode ser vista como um espaço privilegiado para repensar a relação entre cidade, cultura e comunidade.

Ao ler A Cidade e as Serras, não precisamos de limitar a nossa interpretação ao contraste entre Paris e as serras portuguesas. O romance pode também ajudar-nos a pensar a própria experiência urbana de Macau. Numa cidade em constante desenvolvimento, como deve a cultura ser preservada, transmitida e renovada? Deve a cultura existir apenas nos edifícios históricos, nos museus, nas exposições, nos roteiros turísticos ou nas celebrações oficiais? Ou deve antes entrar de forma mais profunda na vida quotidiana dos residentes, tornando-se uma experiência partilhada, participativa e viva?

É precisamente aqui que o tema “a cultura entra na comunidade” ganha especial importância. A cultura não deve ser apenas algo que se observa à distância; deve tornar-se parte da vida das pessoas. Quando a cultura fica apenas no plano da exposição ou da representação exterior, corre o risco de se transformar num símbolo vazio. Pelo contrário, quando entra nos bairros, nas escolas, nas bibliotecas, nas associações, nas famílias e nas conversas do dia a dia, volta a ganhar vitalidade. No caso de Macau, a herança cultural sino-portuguesa não deve limitar-se às fachadas dos edifícios, aos nomes das ruas ou às explicações históricas. Pode ser continuamente reativada através de atividades de leitura, aprendizagem linguística, partilhas literárias, visitas comunitárias, participação em festas tradicionais e diálogo entre diferentes gerações.

Em suma, considero A Cidade e as Serras uma obra especialmente adequada ao tema “A cultura entra na comunidade”, porque mostra que a cultura não é apenas conhecimento acumulado, nem um património guardado à distância. A cultura é também uma forma de viver, de pertencer, de criar laços e de encontrar sentido na relação com os outros. O percurso de Jacinto, da cidade para as serras, não representa apenas uma mudança de espaço físico; representa uma verdadeira aprendizagem humana. Ao deixar Paris e regressar a Tormes, Jacinto descobre que a felicidade não depende apenas do conforto, da tecnologia, da riqueza ou da sofisticação intelectual. Pelo contrário, encontra uma vida mais autêntica quando se aproxima da natureza, da terra, dos alimentos simples, das pessoas e da comunidade.

É esta dimensão que torna o romance tão atual. Num tempo em que muitas cidades valorizam sobretudo a velocidade, o consumo e a modernização, Eça de Queirós recorda-nos que o progresso só tem verdadeiro valor quando não rompe os laços humanos. A cultura, quando entra na comunidade, deixa de ser apenas uma ideia abstrata; transforma-se numa experiência viva, partilhada e quotidiana. Por isso, esta obra convida-nos a repensar a relação entre cidade, memória e pertença, mostrando que a verdadeira riqueza de uma vida está também na simplicidade, na natureza e na relação viva com a comunidade.

A Cidade e as Serras

▸ A Cidade e as Serras

Author:Eça de Queirós

Publishing House:Guerra & Paz

Year of Publication:2016

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More Than Heritage: Finding Macau's Soul in Simple Memories Vicky Lo

Founder of Strive International Consulting Limited and currently an Executive Manager for Training and Communication at an integrated resort. Previously served as a Learning and Development Manager for a luxury hotel in Saudi Arabia, overseeing hotel training programs. Author of  Little Black Note.

More Than Heritage: Finding Macau's Soul in Simple Memories

 

Memories of Old Macau: The Story of My Childhood is a book of childhood recollections. Using simple, honest language, the author traces daily life from about age three through the end of primary school. In the 1960s, Macau is portrayed as small and unhurried, with strong community bonds and a way of living where people knew each other’s routines, and often each other’s worries. The warmth in these pages feels increasingly rare in any modern urban life.

 

As someone living in Macau in 2026, reading this book feels both fresh and familiar. I didn’t live through the 1960s, but the author’s descriptions let me quietly “step into” a time I never experienced. It’s like receiving a window into a forgotten world—quiet, intimate, and real.

Simple Words That Convey Deep Emotions

One of the book’s strengths is how naturally it brings childhood back to life. The language is plain and easy to follow. Through observation and emotion, small details—interactions, routines, friendships—become vivid. Importantly, these seemingly minor moments hold the deepest emotional weight.

For example, when describing the grandmother visiting a fortune teller, the author doesn’t reply on dramatic wording. Instead, she focuses on the grandmother’s actions:

“Grandmother left the fortune teller’s stall, her hands behind her back, still holding tightly onto the letter she brought from home. Slowly, she walked back to Rua das Estalagens from Rua dos Mercadores.”

Even without explaining the grandmother’s feeling directly, the pace of her steps and the way she holds the letter communicate her anxiety and hope. The writing proves that in honest prose, less really can become more.

The book also mentions places such as Rua de S. Paulo, Rua de Cinco de Outubro, Nam Van Seashore, Rua das Estalagens, and Camões Garden. These locations are described as they once were before modernization changed their atmosphere. Everyday life, modest buildings, and close community ties give each place its own memory.

At the same time, the book carries a subtle sorrow. Macau has grown in technology and economy, but it has also lost some of its storytelling charm. Many "revitalization" projects may look good, yet fail to protect the actual stories behind old streets. For instance, Calçada do Tronco Velho, once full of creative life, now retains only a few traces of its past. This book gives readers a chance to revisit those lost scenes and consider how Macau’s culture can inspire the future. Without memory, development can feel hollow.

The Bonds and Warmth of Community

The author highlights family and neighborhood connections that once formed naturally. In that time, people shared spaces more closely, trusted each other more easily, and built relationship through daily life rather than through training programs or “teaching social skills.”

Children played together partly because they lived near one another, and friendship happened as a normal part of the neighborhood environment. Adults, too, supported each other within small communities. Communication and daily routine had a warm, human quality: a single letter could carry deep emotion and serve as important bridge between people. Even work and “small errands” strengthened personal ties, for example, helping neighbors read or write letters for those who couldn’t, or children earning pocket money by fetching water for wealthier families. The overall impression is that life was simple, yet deeply connected.

Today, technology has replaced many of these needs. Communication is faster, but often colder—through quick texts and apps rather than slower, more personal exchanges. This shift raises an uncomfortable question: have modern approaches to “resilience” and child development become too artificial? Compared with wisdom gained naturally over time, today’s methods may teach skills while risking a loss of character.

Seeing Kindness in Macau’s Local Culture

The book also shows how local culture reflected understanding in quiet, everyday ways.

For instance, in the past, adults could buy one cinema ticket and bring their children in, sometimes because  ticket checkers chose not to interfere. That kind of unspoken rule reveals a community logic: people assumed trust, shared space, and quietly made life easier for families.

Another example is “pawnbroking,” which shows how material hardship shaped human relationships. The author tells of a pedicab driver who pawned his blankets every summer and redeemed them in winter. In this way, pawnshops became lifelines for families under pressure. Today, the historical Tak Seng Pawnshop has been turned into a museum—linking personal survival stories with local history and reminding us that  cultural heritage is not only buildings, but also lived experiences.

The evolution of tea houses into tea restaurants (known in Cantonese as “cha chaan teng”) is also fascinating. In the 1960s, places like Tak Ming Tea Restaurant was affordable alternatives to Western-style tea experiences. Dining there felt special: the author’s father might wear a suit, and the author would dress up too. She describes how “a waiter in his white shirt and black pants came to greet us.” Today tea restaurants may be more practical and accessible, but some of the original charm has faded. That charm was never just about money—it was about care.

A Great Book for Parents and Children to Read Together

The book includes a child-friendly dimension as well. The author quotes a well-known saying by a Chinese writer: “Toys are the angels of children,” emphasizing the value of playfulness in childhood. The Chinese edition includes pen-and-ink illustrations, while the English edition uses colorful paintings that attract children. Because of its accessibility and emotional clarity, the book works not only as history, but also as a shared reading experience. It becomes a useful way for parents to introduce children to Macau’s past while connecting it to real places. Passing on a city’s soul, after all, often begins in the home.

Conclusion: Cherishing a City’s Stories and Roots

Memories of Old Macau: The Story of My Childhood feels like a love letter to old Macau and a reminder of what transformation can take away. By using simple words, the author brings the past to life and encourages readers to reflect on cultural roots and human connection. Modern life makes it impossible to fully return to that time, but books like this keep the stories alive in our minds.

The author’s message gently suggests that Macau’s most precious treasures are not its World Heritage sites or modern events such as the Grand Prix. Instead, its true value lies in the warmth, humanity, and hidden stories inside its streets and alleys. If you want to understand the wisdom of old ways and feel moved by touching memories, this book offers exactly that. And in being moved, we learn to cherish what still remains.

Memories of old Macau: the story of my childhood

▸ Memories of old Macau: the story of my childhood

Author:Amy Lau,Gigi Lam,Chan Wai Man

Publishing House:Red Corporation Limited

Year of Publication:2022