A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, é uma obra que, à primeira vista, apresenta o contraste entre a vida urbana e a vida rural. No entanto, a sua força literária vai muito além dessa oposição. Lida no contexto do tema “A cultura entra na comunidade”, esta obra permite-nos refletir sobre uma questão essencial: onde vive verdadeiramente a cultura? Apenas nos grandes centros urbanos, nos livros, nos museus e nas instituições? Ou também nos gestos quotidianos, nas relações de vizinhança, na comida, na terra, na memória e na vida simples de uma comunidade?
O protagonista, Jacinto, vive inicialmente em Paris, símbolo máximo da civilização moderna. Rodeado de livros, máquinas, aparelhos, conforto material e novidades tecnológicas, parece ter tudo para ser feliz. Contudo, quanto mais abundante é a sua vida material, maior parece ser o seu cansaço interior. A cidade, que deveria representar progresso e felicidade, torna-se para ele um espaço de saturação, isolamento e vazio. É precisamente aqui que encontro uma das maiores qualidades do livro: Eça de Queirós não critica a modernidade de forma direta ou simplista; antes mostra, com ironia e inteligência, como o excesso de conforto e de civilização pode afastar o ser humano daquilo que é essencial.
Um dos aspetos que mais aprecio nesta obra é a sua atualidade. Embora tenha sido escrita há mais de um século, continua a dialogar com o nosso tempo. Hoje, também vivemos rodeados de tecnologia, informação rápida e meios de comunicação constantes. No entanto, isso não significa necessariamente que vivamos melhor ou que estejamos mais próximos uns dos outros. Pelo contrário, muitas vezes a vida urbana moderna cria distância, pressa e ansiedade. A experiência de Jacinto em Paris funciona, por isso, como um espelho da condição contemporânea: temos mais instrumentos, mas nem sempre mais sentido; temos mais comodidade, mas nem sempre mais comunidade.
Quando Jacinto regressa à sua propriedade em Tormes, nas serras portuguesas, a narrativa muda de tom. O espaço rural não é apresentado apenas como paisagem bonita ou refúgio romântico. É antes um lugar onde o protagonista reencontra a simplicidade, a natureza, a alimentação ligada à terra, o contacto humano e a pertença a uma comunidade concreta. Em Tormes, Jacinto deixa de ser apenas um indivíduo isolado no meio do luxo urbano e passa a relacionar-se com pessoas, lugares e responsabilidades. A serra torna-se, assim, um espaço de reconstrução interior.
Esta dimensão aproxima muito o livro do tema “A cultura entra na comunidade”. A cultura não deve ser entendida apenas como algo distante, reservado a especialistas ou conservado em espaços formais. Ela vive também nas práticas do quotidiano: na forma como se acolhe alguém, na maneira como se partilha uma refeição, nas histórias de uma terra, na relação com os vizinhos e na memória coletiva de um lugar. Em A Cidade e as Serras, a cultura aparece precisamente como experiência vivida. Não é uma decoração exterior à vida; é uma força que organiza a relação entre as pessoas, a natureza e a comunidade.
Outro grande mérito da obra está no estilo de Eça de Queirós. A escrita combina ironia, humor, crítica social e momentos de grande beleza descritiva. As páginas dedicadas à vida parisiense são marcadas por uma observação satírica muito fina: os aparelhos, os hábitos sofisticados e a obsessão pelo progresso surgem muitas vezes de forma quase ridícula. Já a descrição das serras, dos alimentos, dos ritmos da natureza e das relações humanas ganha uma tonalidade mais calorosa e poética. Esta mudança de estilo permite ao leitor sentir, e não apenas compreender, a diferença entre os dois mundos.
O que mais valorizo, porém, é o equilíbrio da obra. Eça de Queirós não defende uma rejeição total da cidade, nem apresenta o campo como solução perfeita para todos os problemas. A sua crítica é mais subtil. O que a obra parece sugerir é que a modernidade, quando se separa da natureza, da memória e da comunidade, pode tornar-se vazia. Por outro lado, a vida simples, quando está ligada à dignidade humana, ao trabalho, à solidariedade e à pertença, pode oferecer uma forma mais autêntica de felicidade.
Para os leitores de Macau, esta obra oferece também um espaço de reflexão particularmente pertinente. Macau é uma cidade altamente urbanizada, densamente povoada e marcada por um ritmo de vida acelerado. Ao mesmo tempo, é também um lugar de grande riqueza cultural, onde convivem memórias comunitárias, bairros históricos, festas tradicionais, edifícios religiosos, gastronomia local e marcas profundas do encontro entre as culturas chinesa e portuguesa. Por isso, Macau pode ser vista como um espaço privilegiado para repensar a relação entre cidade, cultura e comunidade.
Ao ler A Cidade e as Serras, não precisamos de limitar a nossa interpretação ao contraste entre Paris e as serras portuguesas. O romance pode também ajudar-nos a pensar a própria experiência urbana de Macau. Numa cidade em constante desenvolvimento, como deve a cultura ser preservada, transmitida e renovada? Deve a cultura existir apenas nos edifícios históricos, nos museus, nas exposições, nos roteiros turísticos ou nas celebrações oficiais? Ou deve antes entrar de forma mais profunda na vida quotidiana dos residentes, tornando-se uma experiência partilhada, participativa e viva?
É precisamente aqui que o tema “a cultura entra na comunidade” ganha especial importância. A cultura não deve ser apenas algo que se observa à distância; deve tornar-se parte da vida das pessoas. Quando a cultura fica apenas no plano da exposição ou da representação exterior, corre o risco de se transformar num símbolo vazio. Pelo contrário, quando entra nos bairros, nas escolas, nas bibliotecas, nas associações, nas famílias e nas conversas do dia a dia, volta a ganhar vitalidade. No caso de Macau, a herança cultural sino-portuguesa não deve limitar-se às fachadas dos edifícios, aos nomes das ruas ou às explicações históricas. Pode ser continuamente reativada através de atividades de leitura, aprendizagem linguística, partilhas literárias, visitas comunitárias, participação em festas tradicionais e diálogo entre diferentes gerações.
Em suma, considero A Cidade e as Serras uma obra especialmente adequada ao tema “A cultura entra na comunidade”, porque mostra que a cultura não é apenas conhecimento acumulado, nem um património guardado à distância. A cultura é também uma forma de viver, de pertencer, de criar laços e de encontrar sentido na relação com os outros. O percurso de Jacinto, da cidade para as serras, não representa apenas uma mudança de espaço físico; representa uma verdadeira aprendizagem humana. Ao deixar Paris e regressar a Tormes, Jacinto descobre que a felicidade não depende apenas do conforto, da tecnologia, da riqueza ou da sofisticação intelectual. Pelo contrário, encontra uma vida mais autêntica quando se aproxima da natureza, da terra, dos alimentos simples, das pessoas e da comunidade.
É esta dimensão que torna o romance tão atual. Num tempo em que muitas cidades valorizam sobretudo a velocidade, o consumo e a modernização, Eça de Queirós recorda-nos que o progresso só tem verdadeiro valor quando não rompe os laços humanos. A cultura, quando entra na comunidade, deixa de ser apenas uma ideia abstrata; transforma-se numa experiência viva, partilhada e quotidiana. Por isso, esta obra convida-nos a repensar a relação entre cidade, memória e pertença, mostrando que a verdadeira riqueza de uma vida está também na simplicidade, na natureza e na relação viva com a comunidade.

